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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Um Presente... Do Passado


Hoje, ao visitar o blog “Recortes” (albumrecortes.blogspot.com), pertença de uma daquelas Amigas de sempre, deparei-me com o texto que se segue, e que escrevi há exactamente 23 anos, 5 dias e 23 horas… (Meu Deus... há quanto tempo... Nem me lembrava de o ter escrito!)
Ri e chorei ao mesmo tempo… Vá-se lá saber porquê… .
(So far and yet so close)


28/05/1986 D.C.
18h30


Caríssima Colega:
Já vai longe o tempo em que as horas neste escritório, pareciam ter 60 minutos, e em que a euforia de sexta-feira não era tão evidente. Longe vai também a altura em que o zelo pelo trabalho era quase 100%.
Agora
, as horas parecem ter crescido, e arrastam-se pesadas e monótonas ao longo de um tempo que parece parado.
O zelo;
esse morreu e é já nesta altura um "cadáver" carcomido e esquecido nas profundezas recônditas da pouca lucidez que ainda nos resta.
Nada nos
resta, pelo menos a curto prazo, a não ser navegar neste "corcel" de produtos químicos que nos corrói o corpo e o espírito, qual ácido nítrico em contacto com o mármore, e de mármore somos nós, que temos que suportar com uma serenidade e coragem que não possuímos, mas que temos que possuir para podermos comer; vestir; enfim, viver.
Melhores dias virão certamente.
E quando
as horas voltarem a ter 60 minutos, tudo parecerá melhor.



(Melhores dias vieram, e foram, e voltaram a vir…
Assim é a Vida… feita de voltas e revoltas neste carrossel chamado tempo, onde continuo a querer entrar… e estar… .
Obrigada Amiga, por este presente delicioso… Obrigada por todas as gargalhadas e todas as partilhas.
Assim é a Amizade!!).

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sempre... Como da Primeira Vez!


O Teu toque
Ao rasgar-me a pele…
Ao esculpir-me a carne…
Ao apertar-me as formas…

O meu abandono
Ao deleite dos Teus dedos…
Ao murmúrio da Tua voz…
Ao fogo do Teu desejo…

A nossa ânsia
No encontro das bocas…
Na oferenda dos corpos…
No gozo da paixão…

A nossa paz
Corpos saciados…
Olhos nos olhos…
Mãos enlaçadas…
Juras de amor…
Vidas refeitas…

Mais que Perfeitas!

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O despertar...


De mão sonolenta e pesada calava o despertador, cujo som metálico e frio, enchia o quarto. Anunciava-se a hora do afastar dos corpos, e eu, com uma vontade que contrariava o tempo, deixava o doce e cálido aconchego dos teus braços, e ainda dormente, ajeitava-te a roupa e pousava-te um beijo no rosto. Um beijo que recebias com “aquele” encolher de ombros , de quem gosta de ser mimado. E ali ficavas, na fronteira que separa o sono do acordar, durante o tempo do meu duche, quase sempre rápido, para que sobrasse tempo para Ti.
Era então chegada a hora do teu despertar, e eu, ainda de toalha enrolada no corpo, entrava no quarto, devagar… e acordava-te…
Substituía-se o som metálico e frio, pela voz suave com que te dizia: “Acorda Amor”, e pelos beijos quentes com que te brindava o rosto. Enchia-se o quarto de carinho… E Tu, carinhosamente… Despertavas!

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Contadora de histórias...


"Conta-me uma história", pedias-me com música na voz, enquanto te aninhavas no meu peito…. E eu, percorria a imaginação e com ela inventava uma história que invariavelmente começava com: “Era uma vez”…. Depois, em voz baixa para não te despertar e dedos de carinho com que te alisava os cabelos, ia inventando, um a um, os personagens de uma história de encantar, a que dava sempre um final feliz. (Não queria que partisses para os teus sonhos com a ideia que também há histórias com finais menos felizes) … Queria que dormisses um sono tranquilo e por isso te dizia sempre: “Dorme em paz amor, que eu tomo conta do teu sono”… E tu lá ias, pousando serenamente nos braços de Morfeu, e no meu peito “abandonavas” o teu corpo, que se tornava mais pesado lentamente. Quero acreditar que sonhavas com os personagens das histórias que te contava, mas nunca saberei ao certo, porque o mundo dos sonhos de quem dorme, é um mistério que apenas pertence ao próprio. E eu sempre respeitei o teu mundo…
Foi há quanto tempo tudo isto? Um ano, dez anos, cem anos? Que importância tem o tempo, se ainda hoje todas as histórias de “embalar” começam com: “Era uma vez”… E terminam com finais felizes?
Ainda que passem mais cem anos… E que eu deixe de existir…


“Era uma vez…”

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Flor de Outono


Era um Domingo de Outono como tantos outros. Dia de meias de lã e aconchego no sofá. Sentada sobre as pernas lia um livro sem conseguir percebê-lo… Avançava duas linhas na leitura, para logo de seguida retroceder quatro, na tentativa de não perder o "fio à meada”… Mas não ficava nada, tinha a cabeça a mil... Pousou a leitura e tacteou na mesinha em busca dos cigarros. Acendeu um, sorvendo uma longa e profunda fumaça. Com os olhos perdidos nas espirais de fumo, que desenhavam no ar engraçadas figuras, deixou-se ficar…
Pelo pensamento passeavam-se memórias que se misturavam com desejos, de tal maneira que lhe era difícil perceber a ténue linha que os separava… Quanto de si eram memórias?? Quanto de si eram desejos??.
Foi despertada pelo som do telemóvel que tocava “If I ain’t got you”. Deixou tocar mais um pouco… Gostava daquela música, sempre tinha gostado!
Olhou para o visor e apressou-se a atender…
Preciso-te… ouviu do outro lado.
“Abandonou” o sofá, tirou as meias de lã, agasalhou-se bem e saiu num ápice.
Pôs de lado as memórias e os desejos, deixou-os ali, deitados no sofá… Retomá-los-ia quando voltasse… Ou talvez não…
Agora era tempo de vida real!
Tempo de se sentir viva!
Tempo de descobrir uma flor no Outono!

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Faz de conta...


Que acordei sem sono
que tomei um bom pequeno-almoço
que não tive de tomar um comprimido
que não tomei banho de água fria, porque não faltou o gás
que não me esqueci da chave do carro e não tive de voltar a casa
que a caixa multibanco tinha dinheiro
que não enfrentei trânsito para chegar ao trabalho
que não vi um animal morto na estrada
que não ouvi a sirene de uma ambulância
que não cheguei atrasada ao trabalho
que não ouvi lamentações dos colegas
que a máquina do café tinha açucar
que tenho tanto para fazer que os minutos não parecem horas
que não são apenas 10:30 h da manhã

E não tive que fazer tanto de conta...
(Há dias do caraças!!)

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Roleta Russa... (tiro 2)

Foto: Google

Ela continuava sobrevivendo... lutando contra a vastidão do nada em que se encontrava.

Havia perdido definitivamente a leveza!! Uma leveza que a dúvida já açoitara e à qual imprimira indeléveis cicatrizes... Aquela leveza em que havia flutuado e que lhe tinha mostrado o caminho do céu (do lado de cá do céu...). Sentia-se agora pesada, como se nos seus ombros pousassem invisíveis e monstruosas criaturas.

Pensou pôr, na secção de perdidos de um qualquer jornal, um anúncio dizendo: "Perdeu-se... o sorriso dos lábios e o brilho dos olhos, pede-se a quem souber do seu paradeiro..." , mas deteve-se no pensamento. Sabia exactamente onde os tinha perdido, e havia que resgatá-los, não porque fossem belos... mas porque precisava deles!!

Fez uma viagem ao centro de si, mergulhou nos sentimentos, prescrutou cada canto do que lhe sobrava, e encontrou... encontrou a porta em cujo centro se lia (em letras bem delineadas sobre uma placa de ouro) a seguinte inscrição: "Porta para a Esperança".

Entrou, muniu-se de toda a fé que conseguiu agarrar com as suas mãos feridas, pousou-a no coração, e voltou a sair de si.

Foi amiga... dedicada... paciente... e esperou... Sabia que as sementes de fé resultariam numa árvore de esperança!

Voltou a acreditar... E acreditar era o primeiro passo!! Repôs o sorriso nos lábios e o brilho nos olhos. Descobriu a ponta do novelo da leveza e tentou trazê-lo até si...

Foi amiga, foi amante, riu, brincou, beijou, abraçou o mundo... A vida voltara a ser mãe... tinha valido a pena!!!

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Meu Deus... porque lhe era tão familiar aquela sensação??
De novo a paralisia dos músculos, a queimadura por dentro...
De novo a espiral de luz, o calor das chamas...
De novo um tempo sem tempo, um rio no rosto...
De novo o despertar... dos que sobrevivem!!

Tinha sido disparado o segundo tiro... no jogo da Roleta Russa.
(Setembro 2007/Fevereiro 2008)

Roleta Russa... (tiro 1)

Foto: Google

Ela permanecia imóvel, estática, literalmente pregada à cadeira... Sentira uma dor dilacerante que lhe paralisara os músculos e a queimara por dentro. Pensou ter morrido e cerrou os olhos com a força de quem não quer ver...

Tinha medo de saber que lugar vinha a seguir... Talvez a espiral luminosa do céu, ou o calor diabólico do inferno... (Não acreditava no purgatório).

Continuou ali, durante segundos... minutos... horas... Não sabia! Naquele pedaço de tempo, o tempo deixara de existir. Foi perdendo a força com que cerrava os olhos e estes estavam agora, apenas fechados... Mas nada... Nem o brilho de uma luz, nem o calor de uma chama... Nada, absolutamente nada! (Como se nada fosse pouco...).

Subitamente, o despertar dos sentidos... acordados por um rio que lhe banhava o rosto. Sabia que os mortos não choram e percebeu que sobrevivera...

Tinha sido disparado o primeiro tiro... no jogo da Roleta Russa.
(Agosto 2007)